Inspirações
Acredito ter feito essa música por volta de . Na época, meu amigo Haiik (ouçam as tracks dele também seus banana :P ) estava construindo um universo para o RPG de Mesa dele. A proposta seria algo direcionado para a estética Solarpunk, mas o underground do mundo acabava sendo sombrio e contendo vários mistérios... (honestamente, não prestei atenção em nada do RPG dele... ¯\_(ツ)_/¯ )
Mas de qualquer forma, tentei me inspirar nessa vibe "Retrofuturismo Positivo"
do Solarpunk usando de referência música ambiente dos anos 70, ali entre Berlin School (corrente de
música eletrônica ambiente e experimental da Alemanha que deriva do Krautrock) e os primeiros trabalhos de
música eletrônica usando sintetizadores da marca Moog (como por exemplo, as
músicas do grande Mort Garson).
Algo que me fascina
muito também é o conceito de "Library Synth" ¹, que
vem da idéia de bibliotecas de trilhas e de sons vendidas em compilados nos anos 70 e 80 para uso em
documentários e filmes.
Um dos exemplos mais populares aqui no Brasil envolvendo "Library Synth" foram as famosas
trilhas substituídas dos seriados de Chespirito, como Chaves e Chapolin
Colorado. A história é de que as fitas de dublagem que foram enviadas para o estúdio
brasileiro apenas continham um único canal de áudio, ou seja: voz, efeitos sonoros e música estavam
todos misturados em um único sinal mono. O estúdio de dublagem teve que usar banco de trilha para
poder preencher com as músicas que seriam perdidas ao mutar o áudio original das fitas (Fonte) ².
Mas bem, toda a "estética" que descrevi falando sobre música eletrônica dos anos 70 e 80 acaba
sendo bem reconhecível ao comparar com as tais trilhas substituídas de Chaves. E de certa
forma, foi meu objetivo alcançar essa "essência"
Foi unindo todas as piras que falei até agora sobre essa mistura de sentimentos conflitantes entre "misterioso" e "confortável" vindas de músicas ambiente antigas, juntando com cenário imaginativo do RPG que eu teria que explorar (além de outras inspirações minhas envolvendo trilha sonora para videogame), que cheguei então na minha música "powerplantstation".
Aspectos Técnicos
Usei cinco sintetizadores para compor a "powerplantstation". O
som
que toca no lado direito é um VST nativo do
FL Studio chamado "Morphine", usando o preset Kasio Flute. O que toca no lado esquerdo é um
emulador da Arturia baseado no Buchla Music Easel, famoso sintetizador portátil e
semi-modular dos anos 70. Ambos os synths estão fazendo o mesmo arpejo, a diferença é que o
Buchla Music Easel percorre por cinco oitavas, enquanto o morphine percorre por duas oitavas.
Além
disso, o pequeno lead que parece uma flauta é feito com um emulador da Arturia baseado no
Oberheim OB-XA, com o preset original A-6 Flute. Um outro synth que toca bem no fundo que acaba
sendo quase que imperceptível é um outro emulador da arturia baseado no Yamaha CS-80, usando
principalmente de pitch bend (técnica de manipulação de tom, fazendo articulações
fora dos tons exatos das notas) para criar esse efeito meio "alien" e desafinado no
lead.
Ah é, quase esquecendo. No final ainda tem um coral sintetizado, mais um emulador da
Arturia (esses caras são muito bons mesmo xD), agora do "Computador/Sintetizador" Fairlight CMI, um
dos aparelhos pioneiros na manipulação de samples (trechos de gravações recondicionados
para se criar novos sons). O interessante é que quase não dá para notar a existência desse som, pois
toca no momento em que a música está lentamente acabando num processo de fade out.
Minha
intenção com essa parte final da música foi justamente trazer a aura de uma "track" que possui
mais material, porém foi cortado prematuramente na masterização (processo de finalização da
produção de uma música), atendendo ao espaço que foi estipulado para estar presente em um filme ou
outra mídia.
Em uma entrevista que o duo Boards of Canada deu para o The Guardian na época do álbum Tomorrow's Harvest (Fonte), eles explicaram pequenas técnicas de arranjo que se inspiraram para criar um sentimento parecido com esse que descrevi até agora. Se utilizando do "conceito" de fade out ou até mesmo do corte seco em master para outras mídias. Acaba que, querendo ou não, virando um aspecto do arranjo e de como percebemos e experienciamos música. Seja da forma "tradicional" de ouvir apenas a música isolada de qualquer outro meio ou fazendo parte de uma obra maior, compondo o pacing de uma outra estrutura narrativa e se submetendo à necessidade da outra obra.
Se perceber bem, alguns sons em destaque aparecem no começo e no fim da música. São gravações e
efeitos que eu mesmo registrei das minhas TVs de tubo (mesma TV que usei no vídeo que vou falar
daqui a pouco... heheh). O som dos botões ajudou com a "estética" de ficção científica que estava
buscando, além de claro do tom agudo que toda TV de tubo faz.
Se analisarem o espectro da
track, vão encontrar uma frequência batendo em aproximadamente 15kHz, isso são os raios
catódicos passando pela tela da televisão, numa velocidade de 15 mil ciclos por segundo, que é o
necessário para montar as imagens na tela de forma fluida. E é por isso que muitas vezes essas TVs vão
ter esse som que incomoda saindo delas. E claro, usei isso como parte da ambientação e do cenário da
música.
A masterização foi um processo bem interessante também. Tentei aplicar o conhecimento que tenho sobre
mídia analógica para tentar simular da melhor forma uma gravação em fita sem parecer escrachadamente
falso e montado.
Tem ruído analógico (é claro), tem automação de distorção que fica mais
proeminente no começo e no final da gravação, leves variações de tom, velocidade e desafinação, strech
e re-strech digital tentando emular algo que foi gravado em uma velocidade e depois foi alterado para
outra velocidade, etc etc etc... Um processo um tanto meticuloso, mas que traz esse resultado mais
autêntico (o próximo passo é comprar um gravador de fita e gravar texturas autênticas, assim como faço
com as imagens de TV de tubo).
Lançamento
Fico feliz com o resultado que consegui atingir com a música, é gratificante ver quando se alcança o ponto de se inspirar em elementos que gosta muito mas ainda sim criar algo diferente e pessoal. No final, mesmo mofando por anos escondida no fundo do meu HD, em 2025 minha música ganhou um lar perfeito que é a gravadora Discos Flutuantes, que junto com outros 60 projetos incríveis formamos o compilado "Música Ambiente do Brasil". Agradeço pelo espaço e pela moral, pela curadoria do Chediak e do Diogo Queiroz, que atualmente gerenciam tanto a gravadora SPEEDTEST RAVE quanto a Discos Flutuantes.
No final, ainda gravei um videozinho para imortalizar minha contribuição para o projeto, usando de base parte do material visual incrível produzido pelo Kawaii Oliveira, Vinícius Monteiro e Chediak. Fiquei surpreso quando vi que minha parte do visualizer era uma visão de uma cidade, que caiu muito bem com aquilo que imaginava ser a ambientação da track. No final, a produção do meu vídeo acabou sendo base para a capa do lançamento separado da gravadora e do compilado.
Se você POR ALGUM MOTIVO QUE SEJA, ainda nÃO OUVIU o compilado de 61 MÚSICAS CONTENTO DUAS HORAS E MEIA DE CONTEÚDO incRIVEL da mais ALTA E FINA seleção de música AMBIENTE desse brAZIL ZILZ ZIL, vái la ouvir o trabalho do pessoal, porq tá muito foda. Os links vão estar todos aí embaixo.
Agradeço novamente a todo mundo envolvido no release, agradeço também você que leu tudo isso até agora. Esse lançamento vai ser um pontapé inicial para muita coisa que vai sair, e aquilo que fico mais feliz por tudo é como esse projeto me deu ânimo e me fez tomar consciência de começar a lançar minhas músicas esperando que outras pessoas ouçam. Uma mudança de chave crucial na minha vida. Veremos como serão os próximos passos do Projeto: Coda313... ^_^